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Ensinar lições de vida, criar memórias familiares e de infância, ajudar o próximo...

... Foi o que fiz ontem passando metade do dia com meninos apartir dos 12 anos num torneio anual de futebol  que um dos condados locais organiza há alguns anos. Com o objectivo preventivo, o programa envolve meninos que vivem em diferentes áreas no passado infestadas por "gangs" ou grupos delinquentes, que apesar de hoje estarem melhor identificadas, as zonas ainda são consideradas de alto risco por serem na sua maioria zonas de baixa renda e com familia de baixo estatuto socio-económico. Muito blá, blá, blá, sei, mas vale a pena.


Eu liderei uma das duas equipas dos mais novitos. Conheci-os minutos antes do primeiro jogo começar. Os miúdos estavam esfomeados por jogar, apesar de cheias de medo por terem de jogar com adolescentes bem maiores que eles em tamanho e idade. Perderam os dois primeiros jogos e empataram o terceiro, pondo-lhes nos quartos de finais, aonde perderam em penaltis com a melhor equipa do grupo, a que ganhou 5 dos 5 jogos que jogaram. Nesse último jogo, os meus Pumas empataram a uma bola. O primeiro jogador que tentou e falhou o penalti nem falava, mas é de um talento incrivel, assim como quase todos os participantes.

O auge do meu dia foi a hora do almoço, particularmente quanto iniciamos a coordenar as coisas. Eu encarreguei-me de orientar as filas. Um dos primeiros meninos, nos seus 15-16 anos não estava enfileirado como queriamos. Toquei-o suavemente no ombro e pediu-o que movesse. O miúdo afastou-se e gritou a pedir que não o tocasse. Desculpei-me pela minha ousadia e falta de sensibilidade...

O programa cuja iniciativa trouxe todos esses meninos aos mesmo campo foi implementado por uma agência aonde eu trabalhei e ajudei em parte do trabalho. A agência fechou há uns anos, mas o programa prevaleceu tranferindo para uma outra agência com objectivos similares. Por isso trabalhar com jovens exaltados e a beira mesmo de explosão não foi/é supresa para mim.

O jovem reactivo fazia parte de um grupo que tinha como mentor um padre. Após sentar-se e almoçar, acredito que após ter reflectido e ser aconselhado pelo padre que os levou para o evento, o menino brindou-me com um gesto apologético sincero e inesperado, explicando-se de que estivera chateado por algo que tinha acontecido pouco antes de eu o ter interpelado, por isso a sua reacção.

Esse é uma das outras razões que juntam esses meninos em eventos como esses. Alguns deles vivem e/ou viveram experiências traumaticas e/ou em circunstâncias ou condições que, por vezes, os fazem procurar identificarem-se com quem eles perceptivamente vêem com figuras protectoras, os grupos delinquente ou "gangs".

Presentes também estiveram uma dúzia de policias, de quem alguns dos meninos sentiram certo grau de intimidação por estarem já programados que a policia é má. Como nos demonstra a midia, há realmente um número deles que nos deixa reticentes. Mas o papel deles no evento é para manter ordem. Afinal esses meninos vivem em vizinhanças com grupos rivais com potencial para retaliação. Dos oradores, o Oficial Rodriguez surgiu com a mensagem de que"temos diferentes árbritos nas nossas vidas (pais/familiares/gardiãos, professores/educadores, pastores/lideres religiosos, vizinhos, etcs), como os que volutariaram para o torneio, que nos ajudam a tomar decisões, baseando-nos no que conhecemos ser certo ou errado, mas nós também temos de usar auto-árbrito." A mensagem positiva continuou com uma senhora do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, que advertiu os jovens a estarem atentos e usarem os recursos adequados para protegerem-se individuamente e entre eles, particularmente no mundo virtual.

Foto de Lwsinha MC
Para terminar o dia, levei os pequenos a um parque com diferentes campos (basquete, futebol, tenis) e um cantinho aquático para os pequenotes. Enquanto os nenucos brincavam, a mamita descansava a sombra da mulemba (quem me dera!) de uma árvore... Vinham apenas para comer algo... O menino cá de casa não resistiu as bolas (disse-vos aqui como ele não as pode ver e ficar quietinho) e foi jogar entre outros meninos mais velhinhos que eles e alguns graúdos.

Foto de Lwsinha MC

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Comments

  1. Olá! Gostei mto do seu blog! Que programa interessante... Parabéns! Onde é? Isso é no Brasil mesmo? bjs Camila VAz

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    1. Oi Camila,
      É nos EUA... O programa é super interessante e integra toda a comunidade de apoio a essas crianças. O torneio é apenas para meninos, mas reconhece-se que as meninas têm problemas bem similares. Afinal de contas esses meninos eventualmente começam a namoriscar...

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  2. Bem Haja Lw!Gostei muito da actividade e da componente social...em saber que houve muitos que se envolveram, criaram pontes e quebraram estigmas. Que essas pontes toquem muitos corações

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    1. O objectivo é mesmo de servirmos de alicerces...

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  3. Obrigada Lwsinha! Já nao é a primeira vez que um post teu me faz pensar e relativizar aquilo que por vezes achamos importante e no fundo são expressões vazias da nossa existência. 'Entregas' como esta é o que realmente importa e faz a diferença.
    Mais uma vez obrigada pela partilha!

    MSM

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    1. Miss Silly Me, é um prazer partilhar essas experiências... Seria bom que coisinhas similares existissem para todos os meninos e meninas que precisam.

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