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Adoptada

Eu não sou como ninguém dessa família. Não me sinto parecida com nenhum deles. Eles são todos bem avontade, falam, dançam, gostam de estar com outras pessoas. Eu quero é estar no meu canto, e que ninguém me incomode. Só posso ser adoptada. Não sou parecida com essa senhora que se diz ser minha mãe. E tão pouco com esse senhor que dizem ser meu pai. Esse que dizem ser meu irmão parece mais com eles do que eu. Eu fui definitivamente adoptada.
Assim senti-me por muitos anos. Não porque tive razões pela forma como me tratavam. Por ser introvertida, fechada, calada, achava que o extrovertismo dos meus pais e irmão eram de família e eu era o peixe for a da água. Inúmeras vezes encontrei, ou assim achei, justificações às minhas desconfianças.
Eu sou a mais velha de dois filhos da minha mãe. O meu irmão sempre foi uma borboleta social, sempre fez muitos amigos, adora sair e divertir-se, e teve/tem uma forma de estar e ser muito diferente da minha. Sei que seria aborrecido se fôssemos os dois igualitos como em Cuba. Mas não podíamos ser mais diferentes…
Em contraste, eu era uma menina caladinha, híper tímida, detestava atenção virada para mim. Não gostava muito de saídas, especialmente aquelas em que eu tivesse de participar de algo. Felizmente os meus pais nunca forçaram que eu fizesse o que não me sentia confortável a fazer. Mas essa também era uma das provas, para mim, que eu fazia parte de outra família, que eles não se importavam.
Para minha sorte e benção, eu era/sou mesmo deles, igualita aos dois pais que tive em tanta coisa que nem tenho forma de fugir dessa herança genética e social. Mas ainda que não fosse deles biológica, eu seria deles mesmo adoptada, como são NOSSOS todos os que passaram pela casa deles.
Tenho alguns membros da minha família que foram adoptados oficialmente, mas na maioria apenas circunstancialmente. Esses últimos sabem que são adoptados por nós, mas os  que foram oficialmente não sabem/sabiam. Um deles ficou a saber num incidente chato, como em muitos casos pessoas adoptadas acabam por saber. Mas ainda assim esse familiar sente-se NOSSO.
Digo muitas vezes que os meus pais tiveram dois filhos juntos, mas são pais de muitos angolanos. Nunca fomos apenas os quarto em casa e por isso agradeço-os, pois aprendemos a partilhar a atenção deles. Os meus filhos têm tios e primos que nunca mais acabam (não que já não tenhamos suficientes familiares).
Lembrei-me dessa fase inquisitiva da minha vida após ter visto o filme “A estranha vida de Timothy Green”, em que Cindy (Jennifer Garner) e Jim Green (Joel Edgerton) um casal feliz, ansei em ter um bebé e iniciar uma família. O filme começa com eles a fazerem uma entrevista para serem considerados pais adoptivos de uma criança. Na entrevista, eles contam a curta experiencia que tiveram com o menino Timothy (Cameron ‘CJ’ Adams), que aparece de repente na vida deles e desaparece quase que no mesmo trovão numa noite de tempestade tempos depois. Ao partilharem alguns dias com o Timothy, o casal descobre que, “às vezes, o inesperado pode trazer alguns dos melhores presentes da vida.”
Como eles, na minha família, o inesperado trouxe-nos dos melhores presentes... Eu não era filha adoptiva, como pensava. Fui/sou a primogénita, super esperada. Mas tenho vindo a conhecer os corações e fazer parte das vidas dos Timothy Greens que passaram e passam pelas nossas vidas.
Muitos deles tiveram passagens curtas e outras são prolongadas. Eu ganhei as minhas manas mais velhas (tia e prima biológicas que me ensinaram a cozinhar), os meus filhos têm a tia Esperança e outras, como o primo Ussene que vão formando memórias e toda uma vida connosco que não importa se são eles adoptados oficialmente ou não.
Eu sou a mana mais velha hoje. Já fui a cassule. Já fui a mana do meio. O carinho, respeito e amizade que temos uns pelos outros não difere porque partilhamos ou não os laços biológicos. O que nos une, e sempre uniu, é, e sempre foi, o carinho que partilhamos uns com os outros e o amor que recebemos dessa mãe que sempre se preocupou com todos nós. Por causa deles (mãe e pai), desde cedo eu sei que adopção será uma forma de seguir o legado que eles deixam com muito orgulho sobre os meus ombros e que de uma forma ou de outra já iniciei há uns anos sendo mãe temporária. Hoje sei que não fui filha adoptiva, como desconfiava, mas sou irmã, tia, prima, adoptada de muitos.

Certificado por Lwsinha MC
Image Via Canto Magia

Comments

  1. Gostei muito de ler, muito profundo. Sou a filha mais velha e única menina, a seguir vêem 2 rapazes.Talvez um dia eu tenha pensado que fui adoptada, porque a minha mãe não largava do meu pé, eu queria brincar, ela mandava-me tantoooo, " Sandra vais fazer aquilo aquilo e aquilo, ês muito preguiçosa , nem pareces mulher, parece que tenho três homens em casa, mulher tem que ser despachada não pode ser preguiçosa,isto não esta bom tem que ser assim,faz tudo de novo"parecia a gata borralheira de tanta tarefa,hahahaha,os meus irmãos tinham liberdade total, eu népias, mas hoje ela quase não me deixa fazer nada, de tanto mimo, Hehehehe...

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    1. Hoje aposto que agradeces que ela foi persistente em manter-te ocupada e fazer de ti uma mulher prendada, Sandra.

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  2. Sou eu...desde os meus seis...mas a vida e todas as pessoas com que convevi...deram-me um pouco de Si e eu pouco de Mim...São ganhos que me fazem sentir, ouvir e respeitar mesmo que seja um desconhecido!

    N.M.R

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    1. É realmente oportunidade de aprendizado, quando se está preparado para receber as lições, N.H.R....

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