Tudo que oiço são as batidas dos pingos da chuva no telhado
de chapa da marquise. Fechei-me na marquise, o único sitio da casa em que ela
pouco mexeu. Era meu. Ai nem ela nem outra pessoa podiam incomodar-me. Como não
sei, mas deu-me. Para aqui fugi muitas vezes quando ela e os trigemeos gritavam
pela casa e eu não os queria ouvir. Só não percebi como é que eu, o homem dos
sonhos dela, como ela me chamou por muitos anos, tornei-me no estranho cá em
casa.
Ela várias vezes perguntou-me se havia outra. E eu dizia que
sim.
Desde que se tornou mãe deixou de dar-me a atenção que antes
dava-me. Gritava a torta e a direita… Gritava comigo até quando me amava, ou
assim eu pensava. Queria que fizesse as coisas como ela queria, e apenas assim.
Por isso, sim, há uma outra mulher na minha vida.
Sentia-me às vezes como se estivesse envolvido num
ménage-et-trois, sem saber qual das mulheres estaria comigo. E já cheguei a
pensar que não queria que nem uma nem outra podessem ficar aqui. Cansei!
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| Via Google |
Apercebi-me quando estavamos nas compras no mercado Banga
Sumo no Sábado de manhã. Uma delas tocou-me na mão e a outra olhou para
os meus olhos. Dos olhos não consegui ver o que a mão deu-me. Nesse instante
foi que perdi o olhar de uma e permiti que entrasse essa nova mulher ousada. Essa
que quer conhecer-me, que entrega-se na sua maturidade, na sua femininidade.
Ela que guia-me na sua entrega e prende-se à mim por dias.
Tremo por dentro ao som dessa chuvinha, por pensar que um
dia pensei em não escolher essa mulher. Mas não a conhecia por ter eu ficado à
espera que regressasse a mulher antiga. Aquela que antes de gerar as vidas que
criamos juntos entregou-se à mim por completo. Essa mesma mulher que me mostrou
a sua nova virtude que eu não percebera até então. Essa nova mulher é a minha
antiga. Ela que hoje aprendi a reconhecer e a ama-la, pois pela primeira vez
deixei-me sentir o toque dos seus dedos. Dedos esses que, hoje reconheço, queriam
apenas dizer-me que me amavam.
Que o silêncio dessa chuva barrulhenta nos seus pingos, a solitude
dessa marquise que ela deixou-me ter, sejam sempre o que faz-me ter a
oportunidade de ver claramente, o que eu pensara que já havia perdido…

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