Senti alguém respirar no meu rosto. Pensei que
estivesse a sonhar, até ouvir a voz da minha Jana, a minha cassule de 5 anos,
chamar por mim.
- Mamã, já não temos nada para comer.
A miúda pausava por um bocadinho, mas não me
largava, repetindo a mesma coisa pelo que pareceu horas. Fingi não ouvi-la até
sentir o acalento das lágrimas delas no meu braço.
- Mamã, já estamos em casa há duas semanas sem
sair. Tu só dormes… Ninguém vem nos ver. Ninguém se importa connosco.
Não tinha forças. A minha mente gritava para ela
parar de chorar e sair dali. Mas ela tinha razão. Estava no meu quarto há duas
semanas sem sair.
Os miúdos, Janir e a Janyna, 8 e 5 anos, cuidavam
de si próprios e de mim também. Eu nem me levantava para urinar. Eles recolhiam
a rasteira, especialmente a Jana, que muitas vezes brincava no chão do meu
quarto escuro. O Janir deixou de cuidar de mim quando apercebeu-se que a irmã
já conseguia fazer aos quase quatro anos.
Eu ando nessa depressão faz anos. Começou na minha
adolescência, mas chamavam-na de preguiça e caprichos. Eu mal dormia, não
comia, estudava durante a noite enquanto não conseguia dormir, por isso tinha
excelentes notas. Mas já não estou bem há 23 anos.
Quando entrei para a universidade aos 16 anos,
afoguei-me mais ainda nos livros. Como continuava a ter contacto social até
certo ponto nunca ninguém suspeitou da minha depressão, nem mesmo os meus pais
que sempre foram muito atentos e chegados à mim.
Nas minhas consultas anuais, eu conseguia fazer de
contas que estava bem. Não gostava que me vissem como debilitada. Até dois dias
antes do meu 19˚ aniversário, quando o stress do curso de medicina mostrou-se
ser tal que eu ingeri um número elevado de uma combinação de medicamentos que
fiquei inconsciente. A minha mãe apercebeu-se do meu sossego e encontrou-me à
tempo.
Recebi acompanhamento psicoterapêutico e
psiquiátrico e não tive mais sintomas preocupantes até após o Janir nascer.
Tive uma depressão pós-parto que quase destruiu o meu casamento. O meu marido
não conhecia-me deprimida. Disse-me nunca ter tido contacto com alguém em
estado depressivo e não soube como apoiar-me. Uma vez mais, a minha mãe veio ao
meu auxílio.
Com apoio conseguimos salvaguardar a minha relação.
A minha carreira deu um pulo enorme. Passei a fazer pesquisas científicas sobre
a depressão em Angola, com um casal amigo meu, ele psicólogo e ela psiquiatra.
Abri a minha clínica privada com um grupo, aonde trabalhei até engravidar da
Janyna.
Aos seis meses tive uma crise depressiva que
fechei-me. Para agravar as coisas, a minha mãe faleceu quando tinha 8 meses de
gravidez e o meu mundo desmoronou por completo. O meu pai e o meu marido
tentaram ajudar-me, mas eu consegui mantê-los à beira sem muito contacto comigo
ou com os miúdos.
Custa-me aceitar, mas com a forma como encontrou-me
a minha filha aceitei que chegou a altura de eu ser internada. Os miúdos
precisam de alguém que cuide deles. Eu não tenho estado a conseguir...
Chamo-me Jarynia, tenho 36 anos e estou há duas
semanas sem conseguir levantar-me da cama. Consigo ouvir a minha Jana a chorar…
Abri os olhos e mal a conseguia ver, mas apercebi-me que a minha vaidozinha
tinha duas tranças, cada uma para o seu lado, talvez feitas pelo Janir que
sempre cuidou dela com muito carinho.
- Filha… Liga para o pai, o avô.
- Mamã! Gritou a Jana ao ouvir-me.
- Liga… Voltei a dizer e fechei os olhos novamente.
Não sei quanto tempo os levou. Ouvia os dois
falarem no meu quarto. O meu pai com um tom desapontado, quase que apologético.
O Marvin, na arrogância de advogado que é, dizia que me tiraria os filhos. Ele que os leve. Não tenho como lutar,
pensei. Eu nem tenho forças para cuidar
deles… Que me levassem dali, era a única coisa que queria. E levaram-me.
Consegui, nas minhas conexões, vir até à África do
Sul, de onde escrevo essa crónica. Estou numa clínica de recuperação.
Qualquer um de nós adultos temos, já tivemos ou
teremos um dia contacto com pessoas com sintomas de depressão ou sentimentos
depressivos. Note-se que, a diferença entre os dois conceitos é que depressão é
uma doença mental que se caracteriza por significante ou prolongada tristeza,
perda de interesse em actividades que habitualmente são agradáveis para nós, e
perda de energia ou cansaço fácil. Algumas pessoas comem excessivamente
enquanto outras perdem o apetite. Umas têm dificuldades a dormir e outras a
despertar (dormem demasiado, como eu). Ter sentimentos depressivos é comum,
sobretudo após experiências ou situações que nos afectam de forma negativa. No
entanto, se os sintomas se agravam e permanecem por mais de duas semanas
consecutivas, convém que se busque ajuda.
Se precisar de apoio, não faça como eu,
isolando-se. Consulte com o seu médico de família ou pediatra dos seus filhos
para recomendações. Em alguns países, as páginas da ordem de psicólogos ou
associação nacional de psicólogos ou conselheiros podem servir de referência em
como encontrar um psicólogo/terapeuta qualificados. Culturalmente,
espiritualmente e por uma questão de escolha pessoal, algumas pessoas preferem
consultar com os seus líderes religiosos, familiares e amigos, ou outros anciãos
que se vejam aptos e disponíveis a prestar ajuda nesses casos.
Nota: Os factos desse conto são fictícios, apenas para ilustrar a seriedade do que possa ser a depressão na vida de uma pessoa.
EUA
http://locator.apa.org/
Brasil
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uau!! fiquei stunning com este testemunho, a dias no fantastico programa brasileiro o Dr. Drauzio Varela falou que em 2023 a depressão vai ser a doença mais preocupante de todos os tempos e ao lêr este testemunho fico preocupada pois muitas são as veses que temos ou vemos alguem com algum sintoma que indica a depressão e não damos a devida importância ou atenção, muitas das veses em pessoas bem próximas. É um assunto sério...
ReplyDeleteLw obrigada pela partilha...
Eu acredito que tenhamos muitas pessoas sem saber como sair desse labirinto. Ainda há muito tabu e muita falta de informação no que diz respeito a saúde mental. Daí eu achar importante criar esses contos para despersonalizar a situação enquanto abordo esses assuntos sérios.
ReplyDeleteÉ um facto! Esta doença está a afectar cada vez mais pessoas, mas continua a ser um tema "tabu", principalmente nas sociedades africanas.
ReplyDeleteóptima iniciativa ;)
Sem dúvidas que ainda existem muito "tabu", estigma, e muita falta de informação, não só no que diz respeito a depressão, mas a maioria (se não todas) as condições de saúde mental. Temos de começar algures. Se nós nos educarmos e perpetuarmos esse conhecimento mais e mais pessoas terão o beneficio de aprender e quiças ganhar mais avontade de abordar e aceitar uma depressão como uma condição como outras fisicas que temos quando não estamos bem.
DeleteObrigada pela visita, Jurene! Volte sempre.
Em Angola, muitos ainda acham que depressão é frescura. Sad!
ReplyDeleteÉ realmente triste, pois de frescura a depressão não tem nada.
DeleteObrigada pela visita anonima! Espero que volte a visitar "o outro lado".
Achei o texto muito comovente e bonito, mais do que isso um alerta.
ReplyDeleteQuerida estas de parabéns, acho que com esta historia conseguiste captar bem esse problema que atinge tanta gente e do qual quase nao se fala.
Quando falamos do assunto, geralmente ja e' muito tarde. Muitos sabemos que e' algo serio, que devemos tratar e procurara ajuda logo seja para nos ou para os outros. Tao pronto percebemos um ou outro sinal devíamos agir, mais ainda tem um estigma muito feio associado a depressão e a qualquer doença mental por isso deixamos para depois, fingimos que nao estamos a ver, alguns ate descartam o problema afirmando ser frescura ou preguiça. Mais no fundo sabemos que e' mais serio.
Realmente Lwsinha estas de parabéns amei o teu texto.
Obrigada, Marcela! É realmente um apelo que nos informemos e ajudemos a quem precise.
DeleteMaravilha de texto, Lwisinha. Tão profundo e tocante. O assunto é crítico e, embora pouco falado em nossa sociedade, muito comum. Há que se ter mais sensibilidade ao tema. Há que se dar, além de atenção, um melhor tratamento à situação, cá em Angola, por exemplo. Brilhante escrita!
ReplyDeleteObrigada, Caly! O trabalho é vasto...
Deletehorrivel, e saber que nenhum de nos esta isento deste estado, principalmente em sociedades como a nossa de Angola, a insanidade mental das pessoas ( consequencia das condições socias que vivemos)é gritante, e vamos manifestando esta depressão de varias formas, obrigada pelo conselho ).
ReplyDelete"é gritante, e vamos manifestando esta depressão de varias formas, obrigada pelo conselho)."
DeleteÉ assustador a forma como a depressão e outras condições mentais são por vezes camufladas. Os inúmeros stresses do dia-a-dia também não ajudam...
Muito interessante...
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