Jonisse emigrou há dois meses com o marido e os quatrigémeos. O marido recebeu oferta de uma posição como expatriado, o que se tornou oportuno para ela também voltar para a escola. Quer fazer o seu doutoramento.
Escolheram viver nos subúrbios da cidade em que estavam, numa área afluente aonde os filhos poderiam frequentar as melhores escolas e ter o que fazer para além da escola. Enquanto estiveram num hotel por duas semanas, Jonisse procurou a casa e decorou-a meticulosamente para o conforto da sua família. O bangaló parecia pequeno por fora, mas era uma casa ampla de espaços abertos propícios para entreter, com um jardim na frente e na parte de trás do quintal. Cada gémeo tinha o seu quarto e ainda puderam ter um quarto para os futuros hóspedes que sabiam que os virão visita-los.
No primeiro dia na casa nova, horas após mudarem-se, a vizinha do lado, da casa colada a da Jonisse, uma mulher que parecia ter os seus não mais de quarenta anos, baixinha e gordinha, mas elegante. Muito simpática, foi saudar os novos vizinhos antes da hora do jantar com um ramo de flores.
- Benvindos a vizinhança! Disse ela à Jonisse.
- Obrigada! Jonisse, respondeu-a quase que sem saber o que dizer ou fazer. Até então, só havia visto esse gesto em filmes e novelas.
- Chamo-me Doriana e vivo na cada aqui do lado com o meu marido. Não temos filhos.
- Nós temos quadrigémeos de 13 anos.
- Não a incómodo mais. Prazer em conhece-la. Queria apenas vir saúda-los e dar as boas-vinhas a vizinhança.
- Obrigada pelo gesto. Obrigada pelas flores. São lindas!
Jonisse viu a vizinha afastar-se. Fechou a porta e voltou para cozinha para terminar de pôr o jantar à mesa.
Os filhos estavam a desfazer as caixas e arrumar os seus pertences nos seus quartos. O marido, Ivan, estava no escritório a arrumar os livros. Chamou-os e sentaram-se todos juntos para jantar.
Na mesma rapidez com que desceram para comer, todos dispersaram-se depois de levantarem a mesa. Jonisse arrumou mais algumas coisas e foi para o quarto continuar a desfazer as malas, no guardafatos.
Sentou-se no chão a organizar as coisas antes de pô-las em cabides ou prateleiras. Encostou-se na parede e começou a ouvir um choro. Ignorou por um instante, por parecer ter desaparecido por um momento. Mas continuou a ouvir o choro reprimido que vinha da parede aonde estava encostada. Foi até ao quarto e pediu que o Ivan viesse ver se ouvia. O marido ouvia também.
- Se calhar é a vizinha, sussurrou o Ivan despreocupado. Alguma coisa se deve ter passado.
Ivan voltou para cama, sem dar-lhe importância ao choro que vinha da parede, que talvez fosse da vizinha. Jonisse não conseguiu ignorar. Sentou-se ali até que deixou de ouvir o que vinha do outro lado da parede.
Na manhã seguinte, enquanto estava à porta a ver os filhos caminharem para a escola, a vizinha saudou-a. Não pareceu triste. Entrou para o carro e partiu, sem demonstrar qualquer indício de que algo pudesse ter acontecido.
- Será que era mesmo a Doriana?, pensou Jonisse, questionando o que ela e o Ivan tinham ouvido na noite anterior.
Passou-lhe a mente que pudessem ser a alma de alguma mulher que vivera antes naquela casa. Mas não conseguiu partilhar essa possibilidade com o Ivan ou os filhos. Ela havia escolhido a casa e não queria que isso fosse um impecilio.
Por uma semana, após a rotina do fim do dia, como se combinado, os choros iniciavam ao mesmo horário e terminavam depois de uns minutos. O Ivan gozava, já vais consular a alma penada?
Jonisse tentou convencer-se de que não precisava de estar ali, que nada podia fazer. Mas, ao fim dessa semana, sem saber porquê, Jonisse passou a chorar também.
Todos os dias sentava-se com o ombro esquerdo e a cabeça encostados à parede, e choravam as duas. Jonisse esforçava-se não chorar muito alto para não interromper a outra, mas fazia-o ao mesmo tempo. Até há dois dias antes dos dois meses de chegarem a esse pais.
Ao abrir a porta, a caminho da escola, um dos quadrigémeos grita pela mãe ao encontrar algo à porta.
- Mãeeeeeeeeeee! Vem ver isso. Deixaram aqui uma coisa. Sem pegar no que estava nos degraus enfrente a porta, os filhos sairam para a escola.
Jonisse corre até a porta e encontra uma caixa pequenina azul clara, embrulhada em um laço branco que quase a cobria por completo. Apanhou a caixa e o envelope de igual azul, também pequeno, com o nome dela escrito em verde alface. Abriu-o apressada. Esse Ivan, já começa com as suas surpresas, pensou. Mas estava completamente errada. O cartão no envelope lia:
Mesmo sem saberes,ajudaste-me nessa etapa difícil
dos mais recentes anos da minha vida adulta.
Obrigada, Vizinha por ajudares-me a enxaguar as lágrimas
da dor da perda da minha única gravidez!
O meu anjo ganhou asas há 10 anos na semana passada.
Ofereço-te esse pensante com as asas de amor como agradecimento solidário.
Sempre, Doriana.
Correu até ao quarto, aonde ainda estava o Ivan e mostrou-lhe o bilhete sem conseguir falar. O Ivan olhou para Jonisse, após acabar de ler o cartão. Caíam-lhe lágrimas pelo rosto. Ivan abraçou-a e deixou-a chorar.

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