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Em casa...


... nessa casa que conhecia mais de madrugada e de noite, na semana passada vi-a a luz do dia. Desde os gritos das brocas e os estalos dos martelos eléctricos nas construções aqui próximo, aos gansos que migraram aos diferentes horários do dia. Nos solavancos diários, não me tinha apercebido que o sol nasce do lado do meu quarto e põe-se à um angulo das janelas dos pequenotes. Ouvem-se sobrevoar, esporadicamente, aviões e um par de vezes ouve-se também um canino latir ao longe. Só não se ouvem crianças. Aquele familiar gritar celebratório entre brincadeiras infantis estava ausente… Ouvi os meus, de que estou acostumada, mas para além deles nenhum mais.

Das vezes que saímos a jogar pelo quintal, ouvimos gritos abafados de meninos na casa por trás da nossa, dos meninos que brincavam entre eles, sob supervisão de babas enquanto os pais trabalhavam. De tempos em tempos viram-se as mãos e caras coladas ao vidro a verem o que faziam os meus. Fez-me pensar nas inúmeras vezes que mesmo em países aonde eu e o meu irmão não falamos a língua, sempre soubemos ou conseguimos interagir com outras crianças da nossa idade em circunstancias similares. Meninos em férias, fechados, sem poderem correr, gritar, saltar e rebolar, como faziam os meus; como eu fiz vezes sem conta na minha infância. Não pude deixar de pensar, será que os pais desses meninos importar-se-iam se os filhos saíssem e se fossem juntar as nossas brincadeiras? Será mais saudável que eles fiquem no ambiente que já conhecem, possivelmente expostos a TV, iPod/Pad, jogos electrónicos? Mas depois queixamo-nos que os pequeninos têm dificuldades a fazer ou manter amizades…

Nesse dia, entramos para casa, cansados e soados, após jogarmos a bola e corrermos por horas, sentamo-nos em silêncio, depois de nos refrescamos, e lemos juntos alguns livros que trouxemos da biblioteca. Ao som do frigorífico, das marteladas nas obras aqui ao lado, e das gargalhadas dos meus pequenos, estivemos até que começou a escurecer...


Desenho por Lwsinha MC e pintado com os pequenos

Comments

  1. É ai quando a preocupação começa a bater a porta.
    Por um lado temos aqueles pais que não deixam os seus pequenos irem a rua com medo de encontrarem alguem que os fassa mal. E do outro lado temos aquela criança que precisa aprender brincar com outras crianças interagir de forma saudável e inocente como eles só, mas na maior parte das veses o primeiro ponto fala mais alto ou seja grita, é só ligarmos a Tv que ouvimos: " Uma criança foi raptada quando brincava a porta de casa com os seu amigos" :(
    Que mundo é esse?
    E muitos ainda são os pais que passam a maior parte do tempo só a trabalhar mesmo, o que impossibilita a interacção com os visinhos, conhecer confiar para que os filhos tornem-se amigos, ficando com a consciência de que quando estiver farto de ficar em casa sabe, pode ir a porta ao lado bater e encontrar alguem/algo que pensa de forma diferente, que tem ideias e assim podem formar uma equipe que vai sempre poder partilhar coisas boas.

    Lw, este texto só me faz pensar na dificiência que os tempos modernos vão provocar em muitas pessoas, cabe-nos tratar de mudar isso...

    Bjkas

    ReplyDelete
    Replies
    1. É muito cumplicado... Infelizmente pode haver perigo também neles irem as casas dos amigos e, para ser sincera, esses perigos podem até ser existentes dentro de casa. Todo o olho não é suficiente, mas ainda assim tem de haver supervisão.

      Delete

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